Diário 25/10/21.

Falta pouco para os meus 36 anos e eu me sinto cansada. Cansada de ser só, cansada de dar o meu melhor, de fazer a coisa certa, de fazer direito.

Parece que quanto mais eu amadureço, mas a minha ficha cai sobre mim mesma, é como se eu fosse entendendo a minha existência em pequenas doses, fortes.

Eu busco sobre a minha ancestralidade, eu me recordo da infância, eu me dou conta que sou um ser humano sozinho, sem nada e nem ninguém para dizer que vai ficar tudo bem, ou para me enaltecer, incentivar, dizer que eu sou boa nisso ou naquilo.

Mas ouço essas coisas de pessoas desconhecidas, digo, pessoas que não possuem nenhum vínculo comigo, porém eu cresci sem escutar das principais pessoas da minha vida. Cresci sem escutar de ninguém que sou incrível. Cresci sem escutar de ninguém que eu sou especial.

Talvez seja por isso que eu estou sempre dando o meu melhor. Para provar que mesmo sem ter tido ninguém para me incentivar, eu consegui ser incrível.

Mas é doloroso as vezes, é pesado. Você ter que ser a única pessoa que cuida de você. Eu acho que desde sempre foi assim, talvez seja por isso que agora eu me sinta tão cansada.

Hoje eu me sinto como se estivesse descansando de uma vida inteira. Desde que terminou o projeto das aulas e a minha vida voltou a ser a mesma, eu me sinto perdida, perdida porque cheguei a acreditar que depois desse projeto, portas poderiam se abrir, algo poderia acontecer. Cheguei a acreditar que a minha vida poderia finalmente mudar, e que essa hora estava chegando, ufa, sempre chega.

Mas eu estava enganada, para variar.

Minha vida voltou a ser a mesma.

Sozinha, sem muito dinheiro e dependendo de um ex para ter um Teto todo meu.

Eu só queria que a minha vida decolasse.

Que eu voasse.

Mas eu sinto que não depende de mim, eu já fiz tudo, tudo que poderia fazer. É como se não estivesse mais nas minhas mãos, eu dei o meu melhor, eu fui, ou, eu sou a melhor, ou uma das melhores.

E nada acontece, porque nesse mundo as coisas não acontecem porque você mereceu, e sim porque você tem algum brasão no seu peito. Esse brasão pode ser uma família, um sobrenome, um círculo social, um casamento, um imóvel…

Pode ser um monte de coisas, que eu não tenho.

E olha que eu tenho muita coisa, mas eu não tenho nenhum status, eu não tenho nada que desperte o interesse (no sentido pejorativo) nas pessoas.

E a vida é um grande jogo de interesses.

Eu me pergunto como vou viver, se eu não tenho nenhum triunfo para jogar… Nenhuma carta na manga…

Na verdade eu tenho. O meu maior triunfo é a minha essência, o meu caráter, meu jeito de raciocinar, a minha lucidez, a minha coragem, a minha luz, a minha alegria, a minha alma rica.

Mas esses valores não despertam interesses. Ninguém quer uma pessoa assim… Digo, só assim, sem nenhum triunfo material.

Seria mais atrativo se eu fosse só mais uma loira, magra e gostosa.

O mais bizarro, é que teve um momento da vida que descobri também que não queria ser isso, eu queria ser mais que um objeto. E fui em busca desse mais.

Mas hoje, depois de ter conquistado esse mais e me sentir ainda mais gostosa e maravilhosa, rs. Eu percebo que nada disso faz diferença, percebo que quanto mais vc sabe, ou, quanto mais você pensa, menos você é aceita. Afinal, o que uma mulher pobre, magra e bonita acha que é para pensar né? Uma mulher pensante e lúcida na sociedade, é uma mulher louca, radical. Eu não sabia disso quando resolvi pensar, rs. Mas mesmo que eu soubesse, certamente não teria desistido de me desenvolver como ser humano. Mas hoje, depois de tanto estudo e tanta resiliência para ter o privilégio de estudar (sim, para alguns, estudar em paz não é um direito, e sim um privilégio). Parece que nada disso faz eu sair do lugar.

Sinceramente, eu nem sei mais o que pensar. Só sei que estou aqui nas trevas, nas profundezas do meu ser, buscando uma luz ou uma força divina que me faça ter forças para pegar um ar…

Mirella Rodrigues

Designer de moda especializada em Upcycle, Ecofeminista e Ativista. Pós-Graduanda em Ciências humanas. Radical, Questionadora, Utópica e Rebelde.

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